AI para Creators


TL;DR
O Brasil usa IA acima da média global: 54% já usaram IA generativa contra 48% do mundo, e 78% dizem usar no trabalho.
Só que o consenso todo se concentra em tradutor, assistente de escrita e busca. Os três usos que qualquer pessoa faria sem pensar duas vezes.
Uso raso cria confiança sem criar competência: 90% dos trabalhadores se dizem confiantes com IA e só 24,6% dizem que funciona na primeira tentativa. Um terço já fingiu saber mais do que sabe.
Enquanto isso, 47% dos profissionais já gastam mais tempo gerenciando e orientando IA do que fazendo o próprio trabalho. Isso exige repertório.
Repertório vem de hábito: um caso novo por semana, numa tarefa real. O teste é simples: o que você fez com IA esta semana que nunca tinha feito antes?
Construir o hábito de explorar
Desde que o GPT-4 foi lançado, uma coisa que eu faço muito é aconselhar quem é próximo de mim a usar IA mesmo quando acha que não precisa. A resposta mais comum era "não preciso disso pra minha área". Parecia razoável. Hoje eu vejo que é justamente isso que separa quem anda de quem corre com IA.
Por que dou esse conselho? Por um motivo prático: é um jeito novo de pensar, um tipo de ferramenta que não existia até pouco tempo atrás e que ninguém tem anos de experiência usando. Some a isso a velocidade em que as próprias ferramentas evoluem.
Sempre que você usa um tipo de ferramenta, desenvolve uma intuição do que esperar, do que ela dá conta e de como ela funciona. Quem já formatou um texto no Word aproveita parte desse conhecimento pra formatar um texto no Notion. Você já sabe o que esperar.
Com IA, começamos todos do zero. Todo mundo está explorando casos de uso, formas de usar, ferramentas auxiliares e técnicas que melhoram o resultado. Só que dessa vez a ferramenta tem uma capacidade fora do comum. Basta experimentar três casos de uso em contextos diferentes pra imaginar aonde ela pode chegar.
Com o tempo, o padrão ficou claro. Quem aceita o conselho não melhora porque achou uma ferramenta mágica. Melhora porque passa a perguntar "e se eu fizer isso com IA?" pra tudo que faz, e acaba fazendo mais. Quem recusa continua perguntando "pra que eu vou usar?". A diferença aparece seis meses depois, quando o repertório de um lado já virou vantagem desleal e o do outro continua no mesmo lugar.
Você não sabe pedir o que não sabe que existe
Quem usa IA só quando precisa faz a pergunta de sempre: "me dá uma ideia de conteúdo". Quem explora chega em outra: "preciso criar um procedimento de atendimento, aqui está um exemplo de conversa minha com um cliente". A segunda pergunta só existe pra quem aposta na ferramenta antes de ter certeza.
Ler sobre IA ajuda a ter ideia do que a ferramenta é capaz, mas não resolve o seu caso. Testar devolve o caso do seu negócio: a dor específica, a tarefa que come o seu tempo e que você nem sabia que dava pra delegar. Essa descoberta não vem de artigo nenhum. Vem de colocar a mão na ferramenta, mesmo com a pergunta errada no começo.
O Brasil usa mais IA e usa raso
Não faltam números. A Ipsos e o Google ouviram 21 mil pessoas em 21 países. O Brasil está acima da média global: 54% já usaram IA generativa, contra 48% da média. No trabalho, 78% dos brasileiros dizem que usam.
Agora repare onde está o consenso. As ferramentas que os brasileiros mais apontam como importantes são tradutor (89%), assistente de escrita (85%) e busca de informação na internet (81%). Os três usos que qualquer pessoa faria sem pensar duas vezes.
É um uso raso, e uso raso cria confiança sem criar competência. A WalkMe ouviu 2.037 trabalhadores americanos que usam IA no trabalho: 90% se dizem confiantes, mas só um quarto (24,6%) diz que a ferramenta funciona na primeira tentativa. E um terço admite que já fingiu ter mais habilidade com IA do que realmente tem.
O BCG encontrou a mesma coisa em escala. Numa pesquisa com 11.749 trabalhadores de 14 mercados, 47% já gastam mais tempo gerenciando e orientando IA do que fazendo o próprio trabalho. Formular comando, explicar contexto, revisar resposta. Isso exige repertório, e repertório vem de uma prática que quase ninguém tem.
Experimentar é hábito, não talento
Fica fácil ler isso e achar que experimentar uma vez resolve. Uma sessão de exploração sem continuidade não adianta. O que separa quem extrai valor de quem não extrai é a repetição.
Precisa virar rotina: um caso novo por semana, aplicado a uma tarefa real. Pega a tarefa que você faz do mesmo jeito há anos e pergunta "e se eu fizer com IA?". Anota o que funcionou. Semana que vem, outra tarefa.
Dieta e academia funcionam igual. A virada vem da constância, e um dia de teste não muda nada. Se você repete esse ritual por três meses, não fica só "melhor com IA": fica com um repertório de casos de uso que ninguém na sua área tem. E ganha o músculo de chegar lá, então quando a próxima ferramenta aparecer a sua curva de aprendizado é menor que a de todo mundo.
A maior armadilha
A diferença entre quem explora e quem só "usa IA" é impressionante. Vejo muita gente falando "não vivo mais sem IA", mas quando a conversa desce um nível na forma de usar, sempre volta pros casos básicos.
Já vi isso em grupos profissionais onde as pessoas falavam de IA como se estivessem na ponta da tecnologia quando, na prática, o uso não tinha evoluído nada, mesmo conversando com a máquina o dia todo.
A humildade aqui é o seu maior ativo. A tecnologia está evoluindo rápido demais pra qualquer pessoa saber de tudo. Ninguém domina isso ainda. Quem acha que já sabe usar e para aí fica pra trás sem entender o porquê.
Os modelos avançam muito, mas quem dita a eficiência é a forma de usar. IA pede ferramenta auxiliar e expertise. Usando do jeito certo já se chega bem longe, e isso vai ficar mais verdadeiro a cada mês.
Se você fala "a IA não está lá ainda" pro seu caso, a chance de o erro estar em você é grande. Seja humilde e procure mais sobre o que dá pra fazer.
O teste
O teste é esse. Toda semana, uma tarefa sua na mão da IA. Não pra provar que funciona, e sim pra descobrir onde ela funciona e onde ela te quebra. É assim que se constrói o critério que quase ninguém tem.
Depois, semana que vem, outra tarefa. Um hábito de cada vez.
Fontes
Ipsos e Google, estudo "Nossa Vida com IA: da inovação à aplicação", com 21 mil pessoas em 21 países, divulgado em janeiro de 2025: 54% dos brasileiros usaram IA generativa em 2024 contra 48% da média global, e 78% dizem usar IA no trabalho. Os percentuais de tradutor, assistente de escrita e busca medem a importância que os entrevistados atribuem a cada uso, não a frequência com que usam. Fonte: Agência Brasil.
WalkMe, AI at Work Pulse Survey 2026, conduzida pela Propeller Insights com 2.037 adultos americanos que usam IA no trabalho: 90% se dizem confiantes, 24,6% dizem que a ferramenta funciona na primeira tentativa e 33% já fingiram ter mais habilidade com IA do que realmente têm. A amostra é só dos Estados Unidos. Fonte: comunicado oficial da WalkMe.
Boston Consulting Group, "AI at Work" 2026, com 11.749 trabalhadores de 14 mercados: 47% gastam mais tempo gerenciando e orientando IA do que fazendo o próprio trabalho. Fonte: comunicado oficial do BCG.

Cofundador da Hubla
Co-fundador da Hubla, passou pela Y Combinator e desde então constrói a infraestrutura de quem vive de vender no digital. Escreve sobre onde a IA muda de verdade o jogo de um creator.
HUBLA NEWS.
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